Capítulo 27

Pela janela, passavam ritmados os postes que suportam os cabos electricos que alimentam o comboio. Os armazéns da área industrial há muito que tinham ficado para trás, assim como as moradias relvadas dos suburbios da cidade.

Berner ficava com um ar engraçado com aquelas roupas do meu pai vários números acima do seu tamanho. Assim sem maquilhagem, até parecia um rapazinho a querer parecer um homem.

A minha mãe incentivou‐nos a levar no corpo toda a roupa que podessemos para que coubesse tudo na mala grande e no saco desportivo de Berner.
A molha do dia anterior deixara‐me num estado meio febril. A transpiração por baixo das três camisolas de lã congelava assim que atingia a superfície da pele e os lóbulos das orelhas que o meu gorro castanho não conseguia cobrir tinham petrificado com o frio assim que sairamos de casa.

— És o homem da familia. Toma conta delas. — disse-me o meu pai quando nos despedimos.
Ambos sabíamos que não passava de um rapazinho de 11 anos e que pouco poderia fazer se a situação se complicasse. A preocupação no seu olhar denunciava isso mesmo.

Vimo-lo ficar para trás sentado no alpendre, à medida que o taxi que nos levou à estação se afastava.
Ali ficou o dia todo até que o mesmo carro se aproximou varrendo o jardim molhado com o mesmo feixe de luz da noite anterior.

— Sejam bem vindos, rapazes. Chegaram mesmo a tempo. O jogo está prestes a começar. — os Red’s jogavam essa noite, mas o meu pai não chegaria a saber o resultado.

~

Foi em 1957 que regressei a San Diego. Nancy ia em trabalho, com as despesas pagas pela revista, e o dever de passar os dias entre o sofá e o cinema do bairro não foram argumento suficiente para recusar o convite para que a acompanhasse.

O quarto era bastante decente e a televisão, o jornal diário e o room-service eram quanto bastava para manter a minha rotina.

Naquele dia levantei-me cedo e saí para comprar o jornal numa Liquor Store na esquina com Ingelow Street. Tomei um café e regressei ao hotel.

Um taxi parou em frente à entrada. Saiu um casal de meia idade, de pele rosada pelo sol, que me chamou a atenção por nada ter de especial: ele, barrigudo, de camisa branca, gravata listada, suspensórios a segurar as calças castanhas e chapéu de aba curta; ela, de vestido ao xadrês em tons de azul, e fita a condizer a apanhar o cabelo loiro.
Traziam uma enorme quantidade de malas que o paquete carregava já para o interior.

Sentei-me no banco traseiro do taxi, sem ter plena consciência de que o estava a fazer.

A casa tinha sido repintada. Tinha agora um tom alaranjado, e o jardim estava cuidado de forma diferente.

Pareceu-me ver o meu pai ainda sentado no alpendre. Agora que tínhamos a mesma idade impressionou-me aperceber-me de como nos tínhamos tornado parecidos.

Quis contar-lhe que Berner estava bem. Que tinha um filho, agora com 7 anos, e que depois do divórcio se mudara para a Costa Leste.
Que nos víamos pouco, mas mantinhamos uma correspondência regular.

Que a mãe vivia agora numa casa em Green Hills onde é bem tratada. De como reclama das velhas que passam o dia a jogar canasta e embirra com as auxiliaries que não a deixam esfregar o quarto que, segundo ela, não cheira a limpo e não é suficientemente arejado.

E que a ia buscar todos os domingos para almoçar comigo e com Nancy.

Um latido ofegante interrompeu-me os pensamentos. Atrás dele corriam um cachorro e um rapazinho de calçoes vermelhos atrás de uma bola.
Um homem mais ou menos da minha idade seguia atrás deles e dirigiu-se para a porta da casa.

— Leve-­‐me de volta ao hotel, por favor. — pedi ao taxista.

Exercício de escrita para a discilina de Narrativas Cinematográficas do mestrado em Desenvolvimento de Projecto Cinematográfico (ESTC).
O desafio consistia em escrever a continuação do capítulo 26 do romance "Canadá" (de Richard Ford), sem nada conhecer do resto da narrativa.
Um texto curto com um estilo que pedi emprestado ao Ford.
2014